Afinal, eleições têm impacto no hábito de consumo das pessoas?

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Eleições têm impacto no hábito de consumo das pessoas? O que dizem os dados

Todo ano eleitoral traz a mesma dúvida: o consumidor freia, espera, adia? A resposta, segundo duas décadas de dados do varejo brasileiro e estudos internacionais, é sim — mas não sempre, nem em todos os segmentos. O impacto das eleições no consumo existe, é mensurável e se concentra em condições específicas: disputas apertadas, compras de maior valor e consumidores polarizados.

Impacto das eleições no consumo: o que dizem os dados do varejo brasileiro

O estudo mais completo sobre o tema no país vem do Ibevar-FIA Business School, que cruzou duas décadas de vendas do varejo (PMC/IBGE) com o ritmo geral da economia (IBC-Br do Banco Central). A conclusão surpreende: historicamente, o ano eleitoral favorece o varejo.

Entre agosto e outubro, o varejo ampliado cresce em média 2,59% em anos de eleição, contra 0,48% nos demais anos. O padrão se repete sob governos de todos os campos políticos — ou seja, é um fenômeno de calendário, não de preferência partidária.

Eleições acirradas travam as compras de maior valor

O problema aparece quando a eleição chega em empate técnico. Isso só ocorreu duas vezes em 20 anos — 2014 e 2022, ambas decididas por menos de 5 pontos. Nesses anos, o varejo ampliado rodou 2,3 e 4,8 pontos percentuais abaixo do ritmo da própria economia, e o setor ficou 5,8 pontos abaixo do padrão esperado.

Tradução: até R$ 62 bilhões deixaram de passar pelo caixa do comércio em um único trimestre — cerca de seis vezes o faturamento de todo o e-commerce brasileiro em um Dia dos Pais.

Segmentos mais afetados em ano eleitoral

O freio não é uniforme. Concentra-se nas compras que podem esperar:

Segmento Recuo vs. padrão (eleições de empate técnico)
Veículos, motos e peças -12,8 pontos
Móveis e eletrodomésticos -11,2 pontos
Material de construção -7,4 pontos (chegou a -14,3 em 2022)
Varejo restrito (consumo diário) -2,4 pontos

O consumo do dia a dia quase não se altera: quem trava é quem pensa em trocar de carro, comprar a geladeira ou reformar a casa. E há um detalhe incômodo: o rebote pós-eleição é mais fraco nas disputas apertadas (0,1% em 2014 e 0,5% em 2022, contra 1,5% de média) — parte da venda adiada nunca retorna.

Em 2026, o alerta é ainda maior: o índice de incerteza de política econômica (EPU-Brasil) marca 238 pontos, o maior já registrado no início de um ano eleitoral, ante 177 em 2022 e 146 em 2014.

Polarização política e comportamento do consumidor: a política entrou no carrinho

O impacto não é só macroeconômico: também é de marca. O estudo “A política entrou no carrinho” (IBPAD), feito com 1.100 brasileiros das cinco regiões, simulou o rumor de que o presidente de uma marca fictícia apoiava um candidato. Resultado: queda de 16% na intenção de compra com apoio a Flávio Bolsonaro e 14% com apoio a Lula.

O efeito é assimétrico: entre quem aprovava o governo, a intenção subia 7%; entre quem o desaprovava, caía 19%. No cenário Bolsonaro, o movimento foi de +23% entre favoráveis e -44% entre contrários. Ou seja: a marca perde mais entre adversários políticos do que ganha entre apoiadores.

Os números de mercado confirmam: segundo Ipec/O Globo (2022), 77% dos brasileiros reduziram ou deixaram de comprar roupas e sapatos em ano eleitoral (82% das mulheres, 72% dos homens), e 53% cortaram higiene e beleza. E uma pesquisa de Neogrid + Opinion Box (2026) mostra que 31% já deixaram de consumir marcas por posicionamento político — e 36% deixaram de frequentar lugares pelo mesmo motivo.

O que os estudos internacionais dizem sobre eleições e consumo

Fora do Brasil, a evidência acadêmica aponta na mesma direção, com nuances:

  • Gillitzer & Prasad (2018) usaram as eleições como experimento natural e encontraram que o sentimento do consumidor afeta o consumo real, especialmente quando o resultado muda as expectativas econômicas.
  • Gerber & Huber (2009) mostraram que a vitória do partido preferido melhora as previsões econômicas dos eleitores e altera seu comportamento real de gasto.
  • Um estudo da Universidade da Flórida (2024), com dados de 1991 a 2019 e sete eleições presidenciais, confirmou que as eleições impactam o sentimento do consumidor, com um “boost” de confiança quando ganha o partido afim.
  • Ipsos (2024, EUA) traz o contraponto: em uma eleição acirrada, 47% dizem gastar menos e 47% poupar mais por causa da incerteza — embora metade afirme que a eleição não muda seus gastos.
  • A Chicago Booth Review alerta que, no agregado, as eleições americanas não movem o consumo de forma relevante: o efeito é mais de percepção do que de gasto real.

Como as marcas devem se preparar para o ano eleitoral

As eleições mudam os hábitos de consumo, mas não de todo mundo nem em tudo. O efeito se concentra em três condições: disputas apertadas, compras de maior valor e consumidores polarizados. Para marcas e varejo, a leitura prática é clara:

  • A comunicação deve cuidar do posicionamento político — o risco de perder entre adversários supera o ganho entre afins.
  • As estratégias de venda devem antecipar o adiamento de bens duráveis — carro, móveis, eletrodomésticos e reformas.
  • Parte dessa venda não volta nem mesmo com o rebote pós-eleição — planeje campanhas para o trimestre seguinte.
  • O consumo de baixo valor e do dia a dia segue estável: é aí que mora a previsibilidade no período eleitoral mas as gôndolas vazias que para o mercado indica ruptura, para os consumidores indica escassez.

Fontes